29/10/2010

maradona e as cheias

Já andei a ler na blogosfera nacional bitaites e mais bitaites sobre as cheias de hoje em Lisboa. Falta de limpeza de sarjetas, caos urbanístico, impermeabilização dos solos, etc etc. Diego Armando, geólogo de deformação, põe os pingos nos is:

Em dias como os de hoje, este tipo de posts são sempre garantidos. Aqui há dois ou três anos, depois de um dos maiores dilúvios do século, as cheias eram sinal de terceiro mundismo. Agora, segundo a teoria do, ao que parece arquitecto, Tiago Mota Saraiva, as cheias desta manhã são consequência da "impermeabilização massiva dos solos de Lisboa". Esta afirmação revela desconhecimento em duas frentes: primeiro, supõe que alguma cidade no mundo tem o problema das consequências da impermeabilizaçao dos solos resolvido, e que por esse motivo esses locais não são penalizados aquando de pluviosidades altas num curto espaço de tempo. Mas, se me perimitem as perguntas: estão Londres ou Paris menos impermeabilizados? A velocidade natural de escoamento por gravidade de um litro de água é a mesma, em Londres e Paris, que em Lisboa (isto é: são as orografias comparáveis)? É verdade que sofrem menos cheias nos pontos em que a cota dos passeios publicos tem a mesma relação com, respectivamente, Tamisa e Sena, que Lisboa com o Tejo? E se sofrem menos cheias, existirão outros factores que nada tem a ver com a "impermeabilização" a concorrer para o menor número de cheias? Isto deveria ser, do meu ponto de vista, básico na cabeça de um arquitecto (até porque são coisas simples de perceber), mas pelos vistos não é. Segundo, e especificando, assume que as diculdades dos vales em escoarem as águas só se podem dever a infiltração reduzida na bacia de captação, o que, enfim, no quadro de regimes pluviais históricos da área de Lisboa, é uma ignorância. Por exemplo: a Trafaria situa-se na foz de uma ribeira e está rodeada por solos que são não só a coisa mais permeável deste mundo, como por vastas florestas e matos que retêm e desaceleram uma quantidade imensa de água. Então não é que a Trafaria, senhor arquitecto, apesar se ser um casario onde nada se constrói há 30 anos e estar rodeado por uma imensa mancha verde e campos de cultivo abandonados, ano sim ano não as ruas desta maravilhosa terra se enchem de água a fugir para o Tejo? Porque será? Por causa da deficiente "impermeabilização"?

Bom, as cheias na baixa a que hoje assistimos não têm absolutamente nada a ver com a "impermeabilização massiva dos solos", isto é o arquitecto Tiago Mota Saraiva a debicar Ribeiro Telles como quem decora. Ribeiro Telles, um dos dos maiores homens portugueses de sempre, não merece ser tratado com esta deferência infantil e ignorante, ainda por cima quando deturpam a sua visão para a acomodar a um piropo político. As recorrentes cheias em Alcântara e no Rossio devem-se ao facto de essas serem zonas naturais de depósito de aluvião, ou seja, são áreas por definição pertencentes ao rio, e que o rio necessita de ocupar de vez em quando para executar o trabalho para o qual nasceu: devolver a água das chuvas ao mar. Se não quiserem cheias a inundar casas, carros e bens, vão ter que, ou elevar toda a área com macacos hidráulicos, ou arrasar as casas e retirar os carros e os bens. A ideia de que, depois do que choveu hoje, as águas da Ribeira de Alcantara e do vale da Avenida da Liberdade se poderiam "infiltrar" antes de se concentrarem nos locais que hoje transbordaram de água é uma fantasia ´que revela desconhecimento das leis mais básicas, enfim, da vida. É que estou sinceramente convencido que para perceber o que hoje se passou e o que o causou e porque é inevitável que continue a acontecer não e necessário recorrer a mais nada que não seja bom senso e vontade de pensar uns minutos nas coisas.

(Nota: texto integral, porque El Pibe tem muitas vezes o hábito de snifar os conteúdos do blog e estes morrem-se nas areias do tempo)

1 comment:

Maggie said...

Lembro-me de quando era criança e a minha mãe trabalha na baixa, quase todas as semanas, no inverno, saia do autocarro directamente para água pelo joelho. Foi há 20 anos.